Uzuncaburç (Diokaisareia): o templo de Zeus Olba e a cidade sagrada esquecida da Cilícia
Nas montanhas de Tavra, a 70 quilómetros a norte de Mersin, a cerca de 1200 metros acima do nível do mar, encontram-se as ruínas de uma das cidades antigas mais evocativas da Turquia — Uzuncaburç, conhecida na Antiguidade como Diokaisareia (Diokesária). O seu coração é o templo de Zeus Olba, do século III a.C., um dos mais antigos templos coríntios do mundo. À sua volta, encontram-se as muralhas da cidade, portões monumentais, uma basílica, túmulos, um teatro romano e uma torre alta e solitária, que deu ao local o seu nome turco atual, «Uzuncaburç» — «torre alta». O silêncio das florestas montanhosas, o ar rarefeito e o céu límpido da Anatólia transformam a visita a este local numa das experiências arqueológicas mais meditativas da Turquia.
História
A fase mais antiga do povoamento está ligada ao Estado teocrático de Olba, fundado, segundo a tradição, já no II milénio a.C. pelos descendentes do lendário sacerdote troiano Ajax (Aias), filho de Teucro. O estado era governado por uma dinastia de reis-sacerdotes hereditários, que levavam o nome de Teucro ou Ajax e adoravam, acima de tudo, Zeus Olbios. Olba controlava as regiões montanhosas da Cilícia Tracheia e mantinha sob o seu domínio as cidades costeiras.
O próprio Uzuncaburç é a cidade sagrada (hieron) de Olba, situada a poucos quilómetros da própria capital Olba (a atual aldeia de Ura). Na viragem dos séculos IV–III a.C., foi aqui construído um magnífico templo de Zeus — um dos primeiros da história a ser erguido no estilo coríntio. A autoria é atribuída a um dos primeiros mestres da arquitetura helenística; alguns investigadores associam o projeto a Seleuco I Nicátor.
No período romano, a cidade foi renomeada Diokaisareia («cidade de Zeus-César») em honra do culto imperial e recebeu o estatuto de pólis. Este foi o seu período de maior apogeu — séculos I–III d.C., quando foram construídas as muralhas da cidade, portões monumentais, uma basílica, uma fonte-nimfeia e inúmeros túmulos. Na época bizantina, o templo de Zeus foi reconvertido numa basílica cristã, e a própria cidade tornou-se uma diocese.
Após as incursões árabes dos séculos VII a IX e a desvio das rotas comerciais, a cidade entrou em decadência e foi gradualmente abandonada. A região passou a fazer parte do Império Selêucida, do Reino Arménio da Cilícia e, posteriormente, do Império Otomano. A aldeia contemporânea de Uzuncaburç formou-se junto às ruínas e existiu durante muito tempo como um pequeno povoado rural.
Os trabalhos arqueológicos sistemáticos tiveram início no início do século XX; expedições alemãs, austríacas e turcas investigaram o templo e a cidade. Uzuncaburç está incluída na lista preliminar do Património Mundial da UNESCO (desde 2014).
Arquitetura e o que ver
Templo de Zeus Olba
O principal tesouro de Uzuncaburç é o templo de Zeus Olba, construído no início do século III a.C. (cerca de 295–280 a.C.). Este é um dos mais antigos templos coríntios conhecidos do mundo — a par do templo de Apolo em Bassae e dos templos ciclópicos de Atenas. As dimensões da plataforma são de cerca de 21 × 40 metros; outrora, o edifício estava rodeado por um peristilo de 30 colunas corínticas (6 × 12), das quais hoje se conservam cerca de metade — com cerca de 10 metros de altura. Nos capitéis é possível observar a forma primitiva da ordem coríntica, com uma decoração vegetal acântica relativamente simples.
Nos séculos V–VI d.C., o espaço interior do templo foi reconstruído para se tornar uma basílica cristã: foram adicionadas a abside e o nártex, e a planta da cella foi alterada. Trata-se de um exemplo raro de um templo antigo que continuou a servir como centro religioso durante quase um milénio — primeiro pagão, depois cristão.
A Torre Alta (Uzuncaburç)
A algumas centenas de metros a norte do templo ergue-se a famosa «torre alta» — uma torre militar e de vigia helenística de cinco andares, com cerca de 22 metros de altura. Esta é uma das torres deste tipo mais bem preservadas em território turco. Foi precisamente ela que deu à aldeia moderna o nome de Uzuncaburç («torre alta»). Do último piso (a escadaria interior está parcialmente preservada) abre-se uma vista panorâmica sobre as montanhas de Tavra.
Portão monumental
O portão nordeste da cidade (século II d.C.) é um dos monumentos mais impressionantes de Uzuncaburç. Trata-se de um propilo em arco com a forma de um arco triunfal, ladeado por colunas coríntias e decorado com uma cornija esculpida. O portão marca o início da rua principal da cidade.
Muralha da cidade e ruas
Conservam-se trechos significativos da muralha da cidade dos períodos helenístico e romano, orientados segundo um traçado regular. A rua principal (cardo) vai do portão norte até ao templo de Zeus; ao longo dela encontram-se fragmentos de colunatas, uma fonte-nimfe e vestígios de edifícios públicos.
Teatro e basílica
Um pequeno teatro romano (século II d.C.) foi escavado na encosta de uma colina, com capacidade para cerca de 2 500 espectadores. Conservam-se as fileiras da caveá e fragmentos da scaenae frons. A basílica bizantina (séculos V–VI) situa-se um pouco afastada do templo de Zeus.
Túmulos e necrópoles
Ao redor da cidade e nas imediações encontram-se inúmeros túmulos romanos e helenísticos — esculpidos nas rochas, mausoléus monumentais em forma de templinhos e sarcófagos maciços. Um dos mais famosos é o mausoléu com dois frontões em estilo helenístico, situado na estrada que conduz ao templo.
Curiosidades
- O Templo de Zeus em Uzuncaburç é um dos mais antigos peripteros coríntios do mundo; a sua construção remonta a uma época em que a ordem coríntia estava apenas a formar-se como um sistema independente.
- A cidade de Olba, capital do estado com o mesmo nome, situa-se a apenas 4 km a sudeste de Uzuncaburç (na aldeia de Ura) e estava ligada a este por uma estrada sagrada.
- Os sacerdotes-reis de Olba usaram os nomes gregos Tevkr e Ajax ao longo de vários séculos — uma forma extremamente rara de governo teocrático hereditário no mundo antigo.
- No recenseamento romano, Uzuncaburç é mencionada como Diokaisareia — «cidade de Zeus-César», o que reflete a fusão sincrética do culto a Zeus de Olba e do culto ao imperador.
- Uzuncaburç integra a lista preliminar da UNESCO (desde 2014) e é ativamente estudada por missões arqueológicas turcas e estrangeiras.
Como chegar
Uzuncaburç está localizada no distrito de Silifke, na província de Mersin, nas montanhas da cordilheira do Tauro, a cerca de 30 km a norte da cidade costeira de Silifke e a 70 km a oeste do centro de Mersin. A estrada segue por uma sinuosa estrada, subindo do nível do mar até aos 1200 metros — isto é uma aventura por si só, com vistas magníficas.
De carro, de Silifke a Uzuncaburç são cerca de 45 minutos (30 km). De Mersin — cerca de 1,5 horas (90 km). O mais prático é alugar um carro; os transportes públicos nas montanhas são irregulares — os dolmuşes de Silifke circulam algumas vezes por dia, sendo melhor verificar os horários com antecedência.
Os aeroportos mais próximos são Adana Şakirpaşa (ADA, 200 km) e Hatay (HTY, 270 km). De Adana ou Mersin partem autocarros regulares para Silifke (1,5–2 horas); a partir daí, pode-se utilizar transportes locais ou táxis.
Dicas para o viajante
Uzuncaburç é um parque arqueológico ao ar livre, acessível durante todo o ano. A entrada é paga, mas barata; está aberto das 8:30 às 17:00 (no inverno) ou até às 19:00 (no verão). Antes da viagem, verifique o horário de funcionamento — na época alta, pode ser prolongado.
A melhor altura para visitar é no final da primavera e no outono (abril–junho, setembro–outubro). No verão, nas montanhas é mais fresco do que na costa, mas durante o dia o sol é forte. No inverno, ocorrem nevões; a estrada torna-se por vezes perigosa. Leve calçado confortável — o terreno é pedregoso e irregular; para subir à torre, é necessário calçado com boa aderência.
Não há cafés, lojas ou casas de banho de nível profissional na área; na aldeia existem algumas pequenas esbarradarias e casas de chá. Leve água e um lanche consigo. Reserve 2 a 3 horas para uma visita completa: o templo de Zeus, a torre, os portões, os mausoléus e as vistas ocupam precisamente esse tempo.
É conveniente combinar a visita com um passeio pela estrada sinuosa através das montanhas de Tavra, uma paragem em Olba (Ura) para visitar as ruínas da antiga capital e a descida até à costa com uma paragem em Silifke (fortaleza, palácio de Selçuk Han). Silifke está historicamente ligada à morte do imperador Frederico I Barbarossa, que se afogou no rio Göksu em 1190.
Os fotógrafos terão uma verdadeira festa: o templo de Zeus com colunas coríntias, tendo como pano de fundo os pinhais e o céu da Anatólia — uma das vistas antigas mais pitorescas da Turquia. A melhor luz é pela manhã e nas primeiras horas após o nascer do sol, quando o sol quente desliza pela fachada ocidental do templo.